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Cultura Santa Rosália

Companhia Industrial Santa Rosália: a fábrica de tecidos que deu nome ao bairro

A história da Companhia Industrial Santa Rosália, a fábrica de tecidos que deu origem ao bairro em Sorocaba: fundação em 1890, porte, jornadas de trabalho e as greves do início do século 20.

Prédio da antiga fábrica têxtil Santa Rosália, em Sorocaba

Foto: Ferik80 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O nome do bairro Santa Rosália vem de uma fábrica de tecidos instalada em Sorocaba no fim do século 19, quando a cidade se firmava como polo têxtil e ganhava o apelido de “Manchester Paulista”. Jornais da época e pesquisas acadêmicas permitem reconstituir o porte daquela indústria e a vida de quem trabalhava nela. Este texto se baseia principalmente no estudo “Indústria têxtil, movimento operário e a questão das greves na cidade de Sorocaba”, do historiador Jefferson Carriello do Carmo, professor da Universidade de Sorocaba (Uniso). O trabalho foi apresentado em 2007 no Simpósio Nacional de História da Associação Nacional de História (ANPUH).

Uma fábrica anunciada em 1890

A industrialização têxtil de Sorocaba começou com a Fábrica de Tecidos Nossa Senhora da Ponte, inaugurada em 1882. Oito anos depois veio a segunda grande indústria do setor. Em 24 de outubro de 1890, o jornal Diario de Sorocaba noticiou a futura instalação da Companhia Industrial Santa Rosália. Em 1º de novembro do mesmo ano, publicou o capital investido e a lista de acionistas.

A empresa se dedicava a fiar e tecer algodão. Os números reunidos no estudo mostram uma das maiores operações da cidade:

ItemQuantidade
Fusos30.168
Teares625
Cardas60
Operários, de ambos os sexos840
Produção mensal de algodãozinho100 mil metros
Algodão consumido por mês80 mil quilos

Segundo a pesquisa, o algodão era quase todo cultivado no próprio município. A fábrica tinha ainda uma seção especial de máquinas de descaroçamento, o que a colocava entre as mais modernas da época.

A vida dentro e em volta da fábrica

Assim como outras indústrias têxteis do período, a Santa Rosália manteve casas para os operários em seus terrenos, origem da vila que deu forma ao bairro. O guia do Santa Rosália conta como esse núcleo se transformou em área residencial e comercial.

A rotina era dura. O jornal O Operário, de orientação socialista e anarquista, denunciou em 1909 jornadas de 12 a 15 horas diárias nas fábricas Santa Maria, Santa Rosália e Fonseca. Às vezes o “serão” ia até a madrugada. Segundo o jornal, essas jornadas impediam os menores que trabalhavam nas fábricas de frequentar as escolas noturnas.

A greve de 1910

Em 10 de março de 1910, os tecelões da Santa Rosália, então de propriedade de Oetterer e Speers & Companhia, entraram em greve. O motivo, segundo O Operário, era a insatisfação com o salário e com o número exaustivo de horas de trabalho. Os operários formaram uma comissão de três representantes, um brasileiro, um italiano e um espanhol, para negociar. Os patrões se recusaram a atender as reivindicações, e a seção de tecelagem decidiu parar.

A paralisação durou um dia. De acordo com o jornal, cerca de 70 trabalhadores ligados ao movimento foram dispensados. Eles tiveram prazo de 2 a 24 horas para desocupar as casas em que moravam nos terrenos da fábrica. A composição da comissão mostra o peso da imigração italiana e espanhola na mão de obra têxtil de Sorocaba.

Crise de 1914 e greve geral de 1917

Em agosto de 1914, numa reunião de industriais e comerciantes na Câmara Municipal para discutir a crise econômica, o diretor da Santa Rosália, Frank Speers, alertou que o fechamento imediato das fábricas deixaria milhares de operários sem pão. O jornal Cruzeiro do Sul registrou a fala. A saída combinada na reunião foi a emissão de bilhetes, garantidos pelos industriais, para a compra de gêneros de primeira necessidade no comércio.

Em julho de 1917, durante a greve geral que se espalhou pela cidade, os grevistas percorreram várias indústrias, entre elas a fábrica de chapéus Souza Pereira, a Santa Rosália e a Santa Maria. Segundo o estudo, mesmo onde já tinha havido aumento de salário, os operários concordaram em parar em solidariedade aos colegas.

Onde ver essa história hoje

O bairro guarda referências do período. A Praça Pio XII, na Avenida Pereira da Silva, é tombada como patrimônio histórico, segundo a Prefeitura, e mantém um coreto, repintado na revitalização entregue em 2023. Quem quiser aprofundar pode consultar o estudo da ANPUH, disponível no site da associação. Coleções de jornais como O Operário e o Cruzeiro do Sul também são citadas nas pesquisas sobre o movimento operário sorocabano.

Fontes: Associação Nacional de História (ANPUH), “Indústria têxtil, movimento operário e a questão das greves na cidade de Sorocaba”, de Jefferson Carriello do Carmo (Uniso, 2007), com base nos jornais Diario de Sorocaba, O Operário e Cruzeiro do Sul; Agência de Notícias da Prefeitura de Sorocaba.

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